sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.


O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras


– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço


O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar

2 comentários:

Anônimo disse...

Também gosto daquele que fala sobre o açúcar...
"O doce açúcar feito por homens de vida amarga".

fera disse...

é isso é 100% verdade, não cabe mesmo